
Eu estava no quarto como sempre. Nada me afetava, até que avistei pela janela – à contra luz – um contorno de um homem. Ele estava em meio à floresta distante e somente com o meu binóculo eu poderia vencer a luz que me vencia. Era Ulisses, tão torneado e forte como ele era quando deixou a Ilha. Meu coração acelerou, parecia que ia sair pela boca. Tratei logo de me deixar linda, afinal quando ele entrasse no meu quarto, em mim, deveria encontrar o que merece: a mais bela mulher de Ítaca. Minha arrumação foi rápida, afobada, uma agonia me pertencia. Logo, logo peguei aquele binóculo novamente como se aquela imagem não pudesse ficar muito tempo distante de mim, e fui verificar qual a proximidade daquela sombra de homem, buscava o seu contorno cada vez mais perto, mas os meus olhos não mais enxergavam, a sombra me engoliu, o seu peso tomou o meu corpo, o binóculo perdeu seu foco e o meu olho converteu-se em lágrimas. Meu amado foi-se, e eu acabara de ter uma miragem em meu deserto, no deserto que ele deixou em mim. Sou luto. Sou morte. Eu canto e lamento a minha vida, a vida de meu filho, de nosso filho sem pai. Os cantos de meus antepassados cantam sobre mim, escuto suas vozes empurradas por minha garganta, língua, dentes. Sou velha agora, meu rosto é foto de Mãe Coragem, puras rugas e bravuras. Sou sabedoria também e com ela o meu coração se acalma. Resolvo verificar a mata novamente, pode ser que eu tenha me enganado, a minha mente não é mais confiável. Tomo o binóculo pelas mãos e me certifico que não há nada além; binóculo-falo-homem guardado em meu peito, algo erótico, algo assim como Ulisses, e me desvio para o seu corpo inteiro em pura dança imaginada. Estou feliz, alegre, seu corpo ausente se faz presente. E a criança ao lado resmunga, chora, e o meu tsssssss controla o berço. É a linguagem do amor, meu Telêmaco!! Como você se parece com seu pai. Te vejo pelo binóculo, vejo cada poro, os cílios, a pele alva. Amo-te filho, filho do pai.